Aula 3 – Machado de Assis: "Memórias Póstumas de Brás Cubas" e "Dom Casmurro"

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Objetivo da Aula

Ao final desta aula, o aluno será capaz de:
  • Compreender a importância de "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (1881) como marco inaugural do Realismo no Brasil e sua ruptura com o Romantismo;
  • Identificar as características realistas presentes nos dois romances: ironia, pessimismo, análise psicológica, digressão e metalinguagem;
  • Analisar a estrutura narrativa inovadora de Brás Cubas (narrador defunto) e a ambiguidade de Dom Casmurro;
  • Comparar as duas obras, reconhecendo-as como expressões máximas da prosa machadiana.

Por que isso é importante?

Por que isso é importante?
Na Aula 2, você conheceu os contos de Machado de Assis, onde ele já exibia seu domínio da ironia e da análise psicológica. Agora, vamos aos dois romances que o consagraram como o maior escritor brasileiro: "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (1881) e "Dom Casmurro" (1899). São duas obras-primas que, juntas, resumem a genialidade de Machado.
 
"Memórias Póstumas de Brás Cubas" é um divisor de águas. Antes dele, a literatura brasileira seguia os padrões românticos de Alencar e Macedo. Com esse romance, Machado implodiu as convenções: criou um narrador defunto, aboliu a linearidade, fez da ironia o princípio estrutural da narrativa e dedicou o livro "ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver". Nada do que se escreveu depois no Brasil foi igual.
 
"Dom Casmurro", publicado quase vinte anos depois, é o romance da ambiguidade. Bentinho, o narrador, conta sua história com Capitu e o amigo Escobar, e o leitor nunca saberá se houve ou não adultério. A genialidade de Machado está em construir um narrador não confiável, ciumento e obsessivo, que envenena a percepção do leitor sem que este perceba. Estudar essas obras é mergulhar no que a literatura brasileira produziu de mais sofisticado e universal.

Contexto Curioso

Quando "Memórias Póstumas de Brás Cubas" foi publicado, em 1881, os críticos não souberam o que dizer. Era um romance esquisito: começava pelo fim (o narrador já estava morto), não tinha capítulos longos, era cheio de digressões e terminava com um capítulo intitulado "Das Negativas", em que o protagonista listava tudo o que não teve na vida. Nenhum herói, nenhum final feliz, nenhuma lição de moral. O público acostumado com José de Alencar ficou perplexo. Mas Machado não estava preocupado em agradar. Ele havia lido os realistas europeus — Flaubert, Balzac, Dickens — e decidira que a literatura brasileira também precisava de sua revolução.
 
A dedicatória de Brás Cubas é, sozinha, uma declaração de guerra ao Romantismo. Em vez de dedicar o livro a uma musa inspiradora, a um mecenas ou à pátria, Brás Cubas dedica suas memórias ao verme que roerá seu cadáver. É um gesto de ironia radical: o defunto não deve nada a ninguém, não espera nada de ninguém. Está livre para dizer o que pensa — e ele diz.
 
Já "Dom Casmurro" nasceu de uma provocação. Machado queria escrever um romance em que a verdade nunca fosse revelada. Quem lê o livro se pergunta: Capitu traiu Bentinho? E a resposta de Machado, silenciosa, é: nunca saberemos. A dúvida é o tema do romance. O próprio título já é uma armadilha: "Dom Casmurro" era o apelido que Bentinho ganhou na velhice, por ser calado e recluso. Mas a palavra "casmurro" também significa "teimoso", "obstinado". Bentinho é um narrador casmurro no duplo sentido: solitário e teimoso. E é essa teimosia que o leva a condenar Capitu sem provas. O romance é, assim, uma armadilha narrativa: o leitor acredita em Bentinho porque só ouve a versão dele. Mas será que ele é confiável?

Teoria Explicada do Zero

"Memórias Póstumas de Brás Cubas" (1881)
O Narrador Defunto: Brás Cubas é um "defunto autor" — alguém que já morreu e, do túmulo, resolve escrever suas memórias. Por estar morto, não tem nada a perder. Pode confessar suas vaidades, seu egoísmo, sua preguiça, sem medo do julgamento alheio. Essa liberdade radical é o motor do romance.
 
Estrutura Fragmentada: O romance não segue uma linha cronológica rígida. Brás Cubas salta no tempo, interrompe a narrativa para filosofar, faz digressões sobre temas variados e dialoga diretamente com o leitor. Essa estrutura antecipa técnicas que só seriam usadas pelos modernistas no século XX.
 
Ironia e Pessimismo: Brás Cubas narra sua própria vida com um distanciamento irônico. Ele não se arrepende de nada, não se comove com o sofrimento alheio, e descreve suas falhas com uma franqueza desconcertante. O pessimismo de Machado se revela na constatação de que a vida é uma sucessão de vaidades e de pequenos fracassos.
 
Crítica Social: O romance expõe a elite brasileira do século XIX — seus casamentos por interesse, suas ambições políticas, sua indiferença diante da escravidão. Brás Cubas é um típico membro dessa elite: nunca trabalhou, viveu de rendas, teve escravos, e jamais se questionou sobre isso.
 
O capítulo "O Velho Diálogo de Adão e Eva": Um dos momentos mais brilhantes do romance. Brás Cubas imagina o primeiro diálogo entre Adão e Eva no Paraíso, e conclui que a humanidade está condenada à repetição dos mesmos erros e ilusões. É uma metáfora do pessimismo machadiano.
 
"Dom Casmurro" (1899)
O Narrador Não Confiável: Bentinho é um narrador em primeira pessoa que conta sua própria história — mas não podemos confiar nele. Ele é ciumento, obsessivo, e quer convencer o leitor de que foi traído. Toda a narrativa é filtrada por sua visão distorcida. O leitor nunca ouve a versão de Capitu.
 
A Ambigüidade como Tema: O romance não responde se houve ou não adultério. Machado constrói uma teia de indícios que podem ser interpretados de várias maneiras. A semelhança entre Ezequiel (filho de Capitu) e Escobar (amigo de Bentinho) pode ser prova de traição — ou mera coincidência, acentuada pelo olhar paranoico do narrador.
 
O Ciúme como Motor da Narrativa: Bentinho transforma o ciúme em uma lente que distorce tudo o que vê. Cada gesto de Capitu, cada olhar, cada palavra é interpretado como evidência de culpa. O romance é um estudo sobre como o ciúme pode envenenar a percepção da realidade.
 
A Metalinguagem: Bentinho, já velho, escreve o livro para "atar as duas pontas da vida" — entender o passado. Mas, ao escrever, ele não encontra respostas; apenas reafirma sua obsessão. O próprio ato de narrar é problematizado.
 
Quadro-Resumo: Brás Cubas e Dom Casmurro
Aspecto Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) Dom Casmurro (1899)
Narrador Defunto autor (Brás Cubas). Bentinho (Dom Casmurro), velho e solitário.
Tom predominante Irônico — cínico — zombeteiro. Melancólico — obsessivo — amargo.
Tema central A vaidade e a inutilidade da vida. O ciúme e a dúvida.
Estrutura Fragmentada, com digressões e capítulos curtos. Linear, com flashbacks e metalinguagem.
Relação com o leitor Provocadora: Brás Cubas zomba do leitor. Manipuladora: Bentinho tenta convencer o leitor de sua versão.
Visão do ser humano Egoísta — vaidoso — movido por interesses. Atormentado — inseguro — prisioneiro de suas emoções.

Exemplos Comentados

Exemplo 1 – "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (Dedicatória):
"Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver, dedico, como saudosa lembrança, estas memórias póstumas."
 
-> Análise: A dedicatória é uma antidedicatória. Em vez de homenagear alguém querido, Brás Cubas dedica o livro ao verme que o devorará. A ironia está em tratar o verme com afeto ("como saudosa lembrança"). É uma ruptura radical com as convenções literárias da época e um anúncio do tom irreverente que percorrerá todo o romance.
 
Exemplo 2 – "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (O capítulo "Das Negativas"):
"Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Velei, se não me engano, duas vezes apenas. O mais é silêncio."
 
-> Análise: O romance termina com um balanço do que Brás Cubas não teve. Em vez de lamentar, ele constata com ironia e distanciamento. A frase final ("O mais é silêncio") é uma citação de Hamlet, de Shakespeare — as últimas palavras do príncipe da Dinamarca antes de morrer. Brás Cubas se equipara a Hamlet, mas com ironia: seu drama é mesquinho, não trágico.
 
Exemplo 3 – "Dom Casmurro" (A Descrição de Capitu):
"Capitu era Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem. Se ainda hoje não sei o que ela era, também não sabia então. Tinha os olhos de ressaca. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. Assim os definiu José Dias, e eu, que não entendia, aceitei a definição."
 
-> Análise: A famosa descrição dos "olhos de ressaca" é ambígua. A ressaca é o movimento das ondas que recuam para o mar — e também a sensação de mal-estar após uma bebedeira. Os olhos de Capitu são descritos como algo que puxa, que arrasta, que esconde. Bentinho não a entende — nunca entendeu. A metáfora da ressaca, criada por José Dias (um agregado da família), é aceita por Bentinho sem questionamento, e o leitor também a aceita. Mas será que Capitu era assim mesmo, ou é Bentinho quem a vê dessa forma?
 
Exemplo 4 – "Dom Casmurro" (A Dúvida Final):
"O resto é saber se a Capitu da Praia da Glória já estava dentro da de Matacavalos, ou se esta foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente. Jesus, filho de Sirach, se soubesse dos meus primeiros ciúmes, dir-me-ia, como no seu cap. IX, vers. 1: 'Não tenhas ciúmes de tua mulher, para que ela não se engane contigo.' Mas eu creio que não, e tu concordarás comigo; se te lembras bem da Capitu menina, hás de reconhecer que uma estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca."
 
-> Análise: O parágrafo final do romance é uma obra-prima da ambiguidade. Bentinho cita a Bíblia (Eclesiástico), mas torce o sentido para se justificar. Ele diz que "crê que não", mas a própria necessidade de afirmar isso revela a dúvida. A metáfora da fruta e da casca sugere que a Capitu menina já continha a mulher que Bentinho julgou adúltera — mas é uma metáfora que serve tanto à acusação quanto à defesa. O romance termina sem resposta, e o leitor fica com a dúvida — a mesma dúvida que atormentou Bentinho a vida inteira.

O Essencial (Guarde Isso)

O Essencial (Guarde Isso)
  • "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (1881): Marco inicial do Realismo no Brasil. Narrador defunto, ironia corrosiva, estrutura fragmentada, pessimismo.
  • "Dom Casmurro" (1899): Romance da ambiguidade. Narrador não confiável (Bentinho), ciúme como lente distorcida, dúvida sem resposta sobre o adultério de Capitu.
  • Ambos: São expressões máximas do Realismo machadiano — análise psicológica, crítica social, metalinguagem, e uma visão desencantada (mas nunca desesperada) do ser humano.

Dicas Práticas

Dica 1 (Decore as frases de abertura e encerramento): A dedicatória de Brás Cubas e a descrição dos "olhos de ressaca" de Capitu são as passagens mais cobradas em provas.
 
Dica 2 (Entenda a função do narrador): Em Brás Cubas, o narrador é livre porque está morto. Em Dom Casmurro, o narrador é prisioneiro de seu ciúme. A diferença entre os dois narradores é uma chave de leitura.
 
Dica 3 (Atenção à ambiguidade): As bancas adoram perguntar se Capitu traiu ou não. A resposta certa é: o romance não dá uma resposta definitiva, e a dúvida é intencional.
 
Dica 4 (Compare com o Romantismo): Enquanto Alencar idealizava o amor (Peri e Ceci), Machado o mostra como interesse (Brás Cubas e Marcela) ou como obsessão destrutiva (Bentinho e Capitu). Essa comparação é frequente nas provas.

Dúvidas Frequentes

Capitu traiu ou não Bentinho?
O romance não responde. Machado constrói a narrativa de forma que a dúvida permaneça. O que importa não é a resposta, mas o fato de que Bentinho acredita na traição e transforma essa crença em verdade.
 
Por que Brás Cubas é um "defunto autor"?
Porque, estando morto, ele está livre das convenções sociais. Pode dizer o que pensa sem medo de represálias. Essa liberdade radical permite a ironia corrosiva e a crítica social do romance.
 
Os dois romances são pessimistas?
Sim, mas de formas diferentes. Brás Cubas é cínico e zombeteiro; Bentinho é melancólico e obsessivo. O pessimismo machadiano não leva ao desespero — leva a uma lucidez desencantada, expressa com elegância e humor.

Exercícios

Nível FácilQuestão 1 – Associe as colunas.
Coluna A (Obra) Coluna B (Característica)
1. "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (   ) Narrador ciumento e não confiável; dúvida sobre adultério.
2. "Dom Casmurro" (   ) Narrador defunto; ironia corrosiva e estrutura fragmentada.

Questão 2 – Qual obra inaugura o Realismo no Brasil?
a) "Dom Casmurro"
b) "Memórias Póstumas de Brás Cubas"
c) "O Guarani"
d) "Senhora"

Nível MédioQuestão 3 – Leia o fragmento da dedicatória de "Memórias Póstumas de Brás Cubas" e responda.
"Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver, dedico, como saudosa lembrança, estas memórias póstumas."
a) Explique por que essa dedicatória é considerada uma ruptura com as convenções literárias da época.
b) Relacione o teor da dedicatória ao tom predominante do romance.
 
Questão 4 – Leia o fragmento de "Dom Casmurro" e responda.
"Capitu era Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem. (...) Tinha os olhos de ressaca."
a) Explique o significado da metáfora "olhos de ressaca" no contexto do romance.
b) Por que Bentinho pode ser considerado um narrador não confiável?
 
Questão 5 – Produção textual.
Escreva um parágrafo (4 a 5 linhas) comparando a visão do amor em "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (o relacionamento de Brás Cubas e Marcela) com a visão do amor no Romantismo (por exemplo, em "O Guarani", de Alencar).
 
Seu parágrafo:

Gabarito Comentado

Questão 1
Ordem correta: (2), (1).
 
Questão 2
Resposta correta: b) "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (1881).
 
Questão 3
a) Porque subverte a tradição das dedicatórias, que homenageavam pessoas queridas ou importantes. Brás Cubas dedica o livro a um verme, tratando a morte e a decomposição com ironia. É uma ruptura com o sentimentalismo romântico.
b) A dedicatória anuncia o tom irreverente, irônico e pessimista que percorrerá todo o romance. Brás Cubas não respeita convenções, não teme o ridículo, e está livre para dizer o que pensa — exatamente como fará ao longo da narrativa.
 
Questão 4
a) "Olhos de ressaca" sugere algo que puxa, que arrasta, que esconde — como as ondas do mar. A metáfora indica que Capitu é uma personagem enigmática, que Bentinho nunca conseguiu decifrar. A ressaca também pode aludir ao mal-estar, ao ciúme que ela provoca nele.
b) Porque Bentinho narra a história do seu ponto de vista, e esse ponto de vista é distorcido pelo ciúme. Ele interpreta gestos, olhares e palavras como provas de traição, e o leitor só tem acesso à versão dele. Não sabemos se o que ele conta é a verdade ou uma projeção de sua obsessão.
 
Questão 5
Resposta livre. Exemplo esperado: "Em 'Memórias Póstumas de Brás Cubas', o amor entre Brás e Marcela é tratado como uma transação financeira — ele compra o amor dela com dinheiro e presentes. Não há idealização: o narrador analisa friamente o que houve, expondo o interesse como motor da relação. Já no Romantismo, como em 'O Guarani', o amor entre Peri e Ceci é puro, idealizado e eterno, sem qualquer sombra de interesse material. A diferença reflete a ruptura realista com a idealização romântica."

Checklist da Aula 3

  • Compreendi a importância de "Memórias Póstumas de Brás Cubas" como marco inicial do Realismo.
  • Identifico as características realistas nos dois romances.
  • Conheço a estrutura narrativa inovadora de Brás Cubas e a ambiguidade de Dom Casmurro.
  • Sei analisar a ironia, o pessimismo e a crítica social machadianos.
  • Resolvi os exercícios e compreendi meus erros.
  • Estou preparado(a) para a Aula 4 – Eça de Queirós, a Questão Coimbrã e o Realismo Português.

Ligação com a Próxima Aula

Você mergulhou nos dois maiores romances de Machado de Assis e compreendeu como o Realismo brasileiro atingiu sua maturidade com ele. Mas o Realismo não foi um fenômeno só do Brasil. Em Portugal, outro gigante — Eça de Queirós — também revolucionava a literatura, expondo a hipocrisia da sociedade portuguesa com um sarcasmo demolidor.
 
Na Aula 4 – Eça de Queirós, a Questão Coimbrã e o Realismo Português, você conhecerá o autor de "O Crime do Padre Amaro" e "O Primo Basílio", sua crítica feroz à burguesia e ao clero, e o contexto da Questão Coimbrã que abriu caminho para o Realismo em Portugal. Até lá!
Continuar estudo

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