Aula 6 – Aluísio Azevedo e "O Cortiço"

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Objetivo da Aula

Ao final desta aula, o aluno será capaz de:
  • Conhecer Aluísio Azevedo como o principal autor do Naturalismo brasileiro e sua obra-prima, "O Cortiço" (1890);
  • Identificar a estrutura do romance, seus personagens principais e os conflitos que movem a narrativa;
  • Analisar trechos da obra, reconhecendo as marcas do Naturalismo: determinismo do meio, zoomorfização, foco no coletivo, crítica social e linguagem direta;
  • Compreender "O Cortiço" como um retrato do Brasil urbano do final do século XIX — a exploração, a miscigenação, a luta pela sobrevivência.

Por que isso é importante?

Por que isso é importante?
Na Aula 5, você conheceu as bases teóricas do Naturalismo e já teve um vislumbre de "O Cortiço". Agora, vamos mergulhar de corpo inteiro nesse romance que é, ao mesmo tempo, um documento social, um estudo de personagens e uma poderosa narrativa sobre o Brasil do século XIX.
 
"O Cortiço" é a obra máxima do Naturalismo brasileiro. Publicado em 1890, o romance retrata a vida em uma habitação coletiva no Rio de Janeiro — o cortiço de João Romão. Ali, dezenas de personagens se cruzam, amam, brigam, trabalham e morrem sob a influência de um meio que a todos transforma. O cortiço não é apenas cenário — é o verdadeiro protagonista da história, um organismo vivo que pulsa, cresce e devora.
 
Estudar "O Cortiço" é importante para os vestibulares porque a obra é presença constante nas provas. As questões costumam cobrar a identificação das características naturalistas, a análise de personagens (especialmente João Romão, Bertoleza, Rita Baiana e Jerônimo) e a relação entre o meio e o comportamento humano. Além disso, o romance oferece um rico painel da sociedade brasileira do final do século XIX, abordando temas como exploração, miscigenação, preconceito e a formação do capitalismo no Brasil.

Contexto Curioso

Aluísio Azevedo (1857-1913) nasceu em São Luís do Maranhão e desde jovem se interessou por literatura e artes plásticas — era também um excelente caricaturista. Antes de se tornar escritor, trabalhou como jornalista e publicou folhetins nos jornais. Seu primeiro romance, "O Mulato" (1881), já trazia as marcas do Naturalismo: denúncia do preconceito racial e forte influência do meio sobre as personagens.
 
Quando Aluísio Azevedo publicou "O Cortiço", em 1890, o Rio de Janeiro vivia um momento de transformação. A abolição da escravatura (1888) e a Proclamação da República (1889) eram recentes. A cidade crescia desordenadamente, recebendo ex-escravos, imigrantes e migrantes de todo o país. Os cortiços — habitações coletivas precárias — eram o retrato dessa nova realidade urbana: superlotação, miséria, promiscuidade, mas também uma intensa vitalidade cultural e social.
 
Diz a lenda que Aluísio Azevedo se hospedou em um cortiço para escrever o romance. Disfarçado, viveu entre os moradores, observou seus hábitos, sua linguagem, suas brigas e suas festas. Verdade ou não, o fato é que "O Cortiço" tem uma força documental impressionante — o leitor sente o cheiro, ouve o barulho, vê as cores daquele mundo.
 
O sucesso do romance foi imediato, mas também veio o escândalo. A crítica conservadora acusou Aluísio Azevedo de imoralidade — o livro descrevia adultérios, prostituição, homossexualidade, violência. Mas o público leitor, cansado das idealizações românticas, abraçou a obra.

Teoria Explicada do Zero

Aluísio Azevedo e o Naturalismo Brasileiro
Aluísio Azevedo (1857-1913) é o principal autor do Naturalismo no Brasil. Sua obra mais importante é "O Cortiço" (1890), mas também escreveu outros romances naturalistas, como "Casa de Pensão" (1884) e "O Homem" (1887). Embora tenha começado sob influência do Romantismo, Azevedo se converteu ao Naturalismo após o contato com a obra de Émile Zola.
 
"O Cortiço" (1890): Enredo e Estrutura
"O Cortiço" narra a vida em uma habitação coletiva no bairro de Botafogo, Rio de Janeiro, no final do século XIX. O cortiço pertence a João Romão, um português ambicioso que explora os moradores e enriquece à custa do trabalho alheio — especialmente o de Bertoleza, uma escrava fugida que ele mantém em regime de semiescravidão.
 
O romance não tem um protagonista individual: o verdadeiro protagonista é o cortiço. A narrativa acompanha a trajetória de dezenas de personagens — lavadeiras, capoeiras, imigrantes, prostitutas, malandros —, cujas vidas se entrelaçam sob a influência do meio.
 
A estrutura do romance pode ser dividida em três momentos:
· Ascensão de João Romão e formação do cortiço: João Romão, auxiliado por Bertoleza, constrói o cortiço e começa a explorar os moradores.
· Apogeu do cortiço como organismo coletivo: O cortiço ferve de vida — festas, brigas, amores, traições. O meio transforma todos que ali vivem.
· Declínio e tragédia: O incêndio do cortiço, a morte de Bertoleza e a ascensão social de João Romão, que abandona suas origens e se alia à burguesia.
 
Personagens Principais
Personagem Descrição Função no Romance
João Romão Português ambicioso — dono do cortiço. Explora os moradores e Bertoleza para enriquecer. Representa o capitalista selvagem — constrói sua fortuna sobre a miséria alheia.
Bertoleza Escrava fugida que trabalha como uma besta para João Romão — acreditando que um dia será recompensada. Representa o oprimido absoluto — a mulher negra, escravizada, duplamente explorada.
Rita Baiana Mulata sensual — lavadeira — amante de Jerônimo e depois de Firmo. Representa a força do instinto — a sedução do meio tropical.
Jerônimo Português trabalhador — casado com Piedade. É transformado pelo cortiço: abandona a esposa — torna-se amante de Rita — entrega-se à bebida e à violência. Exemplo do determinismo: o meio transforma o homem.
Piedade Esposa de Jerônimo. Mulher branca — portuguesa — devota. É abandonada pelo marido. Representa a vítima do adultério e da degradação moral.
Firmo Capoeira — amante de Rita Baiana. Representa a cultura popular — a malandragem.
Pombinha Moça sensível — filha da dona de uma pensão. É estuprada na noite de núpcias e, depois, torna-se prostituta de luxo. Mostra como o meio corrompe — a pureza é destruída pelas circunstâncias.
Miranda Burguês que mora em um sobrado ao lado do cortiço. Representa a falsa respeitabilidade da burguesia.

Características Naturalistas em "O Cortiço"
· Determinismo do meio: O cortiço não é apenas cenário — é um agente ativo que molda as personagens. Jerônimo, o português sóbrio, é transformado pelo calor, pela música e pela sensualidade de Rita Baiana. O meio tropical "abrasileira" o estrangeiro.
· Zoomorfização: As personagens são frequentemente descritas com metáforas animais. O cortiço é um "organismo vivo"; as lavadeiras são "formigas"; os amantes são "bichos no cio".
· Coletivização: O protagonista não é um indivíduo, mas a massa. O romance acompanha a vida coletiva do cortiço, com suas festas, suas brigas, seu ritmo próprio.
· Crítica social explícita: Aluísio Azevedo denuncia a exploração (João Romão × moradores), o racismo (a condição de Bertoleza), a hipocrisia burguesa (Miranda) e a miséria urbana.
· Linguagem direta e descritivismo: A prosa naturalista é minuciosa nas descrições dos ambientes e das ações. Cenas de sexo, violência e degradação são narradas com crueza, sem idealização.
 
Temas Centrais
· Exploração e capitalismo selvagem: João Romão é a personificação do capitalista que enriquece explorando os mais fracos. A relação dele com Bertoleza é a metáfora da exploração colonial.
· Miscigenação e sensualidade: Rita Baiana é o símbolo da mulher mulata, sensual, que seduz e transforma. O romance celebra e, ao mesmo tempo, estereotipa a mestiçagem.
· Degradação e ascensão social: João Romão sobe na vida, mas à custa de sua humanidade. O cortiço, que foi sua fonte de riqueza, é destruído. A ascensão social é mostrada como um processo sujo.
· A luta pela sobrevivência: Os moradores do cortiço vivem em constante competição — por espaço, por trabalho, por parceiros amorosos.
 
Quadro-Resumo: Características Naturalistas em "O Cortiço"
Característica Como Aparece no Romance
Determinismo do meio O cortiço transforma Jerônimo — corrompe Pombinha — molda o comportamento de todos.
Zoomorfização Personagens comparadas a animais — o cortiço descrito como organismo vivo.
Coletivização O protagonista é o cortiço — não um herói individual.
Crítica social Denúncia da exploração (João Romão) — do racismo (Bertoleza) — da hipocrisia burguesa (Miranda).
Linguagem direta Cenas de sexo, violência e miséria narradas com crueza — sem idealização.

Exemplos Comentados

Exemplo 1 – O Cortiço como Organismo Vivo (Coletivização e Zoomorfização):
"Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo não os olhos, mas as suas inúmeras portas e janelas alinhadas, um acordar alegre e farto de quem dormiu de uma assentada sete horas de chumbo."
 
-> Análise: O cortiço é tratado como um ser vivo — ele "acorda", tem "portas e janelas" como se fossem olhos. A coletivização é total: não são os indivíduos que acordam, mas o cortiço como um todo. Essa personificação do espaço é uma das marcas naturalistas mais evidentes do romance.
 
Exemplo 2 – Jerônimo e o Determinismo do Meio:
"Jerônimo, até ali um homem sóbrio, trabalhador, econômico, foi-se transformando. O calor, a luz, o cheiro da terra, a música, a dança, a mulher — tudo aquilo o foi invadindo, penetrando, possuindo."
 
-> Análise: O português é "abrasileirado" pelo meio. Ele não decide mudar — é invadido, penetrado, possuído. O determinismo é claro: o homem é passivo diante das forças do ambiente. A transformação de Jerônimo é uma das passagens mais emblemáticas do Naturalismo no Brasil.
 
Exemplo 3 – A Morte de Bertoleza (Crítica Social):
"Bertoleza, a escrava, a besta de carga, a que tudo dera e nada recebera, ali ficou estendida no chão, com os olhos abertos, como se ainda procurasse alguma coisa. João Romão olhou para ela, depois para o espelho, e ajustou a gravata."
 
-> Análise: A morte de Bertoleza é o ápice da crítica social do romance. Ela trabalhou uma vida inteira para João Romão, acreditando que seria recompensada, e termina morta como um animal. A indiferença de João Romão — que ajusta a gravata diante do cadáver — é o retrato mais cruel do capitalismo selvagem. O Naturalismo não oferece consolo: a exploração é total, e a vítima é descartada.

O Essencial (Guarde Isso)

O Essencial (Guarde Isso)
  • Aluísio Azevedo (1857-1913): Principal nome do Naturalismo brasileiro. "O Cortiço" (1890) é sua obra-prima.
  • O protagonista é o cortiço: Não há herói individual — o coletivo é o centro da narrativa.
  • Determinismo do meio: O ambiente transforma as personagens (Jerônimo, Pombinha).
  • Zoomorfização: Personagens e espaços são descritos com metáforas animais.
  • Crítica social: Exploração de João Romão sobre Bertoleza e os moradores; hipocrisia burguesa de Miranda.
  • Personagens-chave: João Romão (capitalista), Bertoleza (oprimida), Rita Baiana (sensualidade e instinto), Jerônimo (transformado pelo meio).

Dicas Práticas

Dica 1 (O cortiço é o protagonista): Se a questão perguntar "Quem é o protagonista de O Cortiço?", a resposta não é João Romão, nem Rita Baiana — é o próprio cortiço, o espaço coletivo.
 
Dica 2 (Identifique a zoomorfização): Sempre que o texto comparar pessoas a animais ou tratar o espaço como um ser vivo, é a marca naturalista mais visível. Isso é muito cobrado em provas.
 
Dica 3 (Decore os pares de personagens e o que representam): João Romão × Bertoleza (explorador × explorado); Jerônimo × Rita Baiana (europeu transformado pelo meio tropical); Miranda × cortiço (burguesia hipócrita × povo marginalizado).
 
Dica 4 (Compare João Romão com Brás Cubas): Ambos são retratos da elite egoísta, mas Brás Cubas é um herdeiro que nunca trabalhou; João Romão é um self-made man que constrói sua fortuna do zero — e à custa dos outros. Essa diferença pode ser cobrada.

Dúvidas Frequentes

"O Cortiço" é um romance de tese?
Sim, como muitas obras naturalistas, "O Cortiço" defende uma tese: a de que o meio determina o comportamento humano. O romance é construído para demonstrar essa ideia.
 
Rita Baiana é uma personagem negativa?
Não. Rita Baiana é complexa. Ela representa a força dos instintos e a sensualidade do meio tropical, mas não é julgada moralmente pelo narrador. O Naturalismo não condena — observa.
 
O que acontece com Pombinha?
Pombinha é uma jovem sensível, filha da dona de uma pensão. Após ser estuprada na noite de núpcias, ela se torna prostituta de luxo. Sua trajetória é mais um exemplo do determinismo do meio: as circunstâncias a corrompem.

Exercícios

Nível FácilQuestão 1 – Associe as colunas.
Coluna A (Personagem) Coluna B (Descrição)
1. João Romão (   ) Mulata sensual — amante de Jerônimo.
2. Bertoleza (   ) Dono do cortiço — ambicioso e explorador.
3. Rita Baiana (   ) Escrava fugida — explorada por João Romão.

Questão 2 – Quem é considerado o protagonista de "O Cortiço"?
a) João Romão
b) Jerônimo
c) O próprio cortiço, como espaço coletivo
d) Rita Baiana

Nível MédioQuestão 3 – Leia o fragmento e responda.
"Jerônimo, até ali um homem sóbrio, trabalhador, econômico, foi-se transformando. O calor, a luz, o cheiro da terra, a música, a dança, a mulher — tudo aquilo o foi invadindo, penetrando, possuindo."
 
a) Identifique a característica naturalista predominante no trecho e justifique.
b) Explique como esse fragmento se diferencia da visão romântica do ser humano.
 
Questão 4 – Compare a ascensão social de João Romão, em "O Cortiço", com a trajetória de Brás Cubas, em "Memórias Póstumas de Brás Cubas". Qual a principal diferença entre os dois personagens quanto à relação com o dinheiro e o trabalho?
 
Questão 5 – Produção textual.
Escreva um parágrafo (4 a 5 linhas) explicando por que "O Cortiço" pode ser lido como um retrato do capitalismo selvagem no Brasil do final do século XIX.
 
Seu parágrafo:

Gabarito Comentado

Questão 1
Ordem correta: (3), (1), (2).
 
Questão 2
Resposta correta: c) O protagonista de "O Cortiço" é o próprio cortiço, o espaço coletivo que molda a vida de todas as personagens.
 
Questão 3
a) O determinismo do meio. O trecho mostra como o ambiente (calor, luz, cheiro, música, dança, mulher) age sobre Jerônimo, transformando-o. Ele não age por vontade própria — é invadido e possuído pelo meio.
b) No Romantismo, o herói é senhor de seu destino, guiado por ideais e sentimentos elevados. No Naturalismo, o homem é um organismo passivo, moldado por forças externas (meio, raça, momento). Jerônimo não escolhe mudar — é mudado.
 
Questão 4
João Romão é um capitalista que constrói sua fortuna do zero, explorando Bertoleza e os moradores do cortiço. Brás Cubas é um herdeiro que nunca trabalhou e vive de rendas. Enquanto João Romão suja as mãos (literalmente) para enriquecer, Brás Cubas herda sua fortuna e gasta sua vida em vaidades. O primeiro é o retrato do self-made man burguês; o segundo, do rentista ocioso.
 
Questão 5
Resposta livre. Exemplo esperado: "O Cortiço é um retrato do capitalismo selvagem no Brasil do final do século XIX porque mostra como João Romão constrói sua fortuna explorando os mais fracos — especialmente Bertoleza, a escrava que trabalha sem descanso e sem salário. O romance denuncia a lógica do lucro a qualquer custo, que transforma pessoas em mercadorias e descarta os que não servem mais. A ascensão de João Romão é a metáfora da formação do capitalismo brasileiro: baseada na exploração e na desumanização."

Checklist da Aula 6

  • Conheço Aluísio Azevedo e sua importância para o Naturalismo brasileiro.
  • Compreendo a estrutura de "O Cortiço" e por que o cortiço é o protagonista.
  • Identifico as principais personagens e o que cada uma representa.
  • Reconheço as marcas naturalistas no romance: determinismo, zoomorfização, coletivização, crítica social.
  • Resolvi os exercícios e compreendi meus erros.
  • Estou preparado(a) para a Aula 7 – Naturalismo em Portugal: Abel Botelho e Outros Autores.

Ligação com a Próxima Aula

Você mergulhou em "O Cortiço" e conheceu o Naturalismo brasileiro em sua expressão máxima. Mas o Naturalismo também teve representantes em Portugal, que seguiram as trilhas abertas por Zola e produziram obras de forte impacto social.
 
Na Aula 7 – Naturalismo em Portugal: Abel Botelho e Outros Autores, você conhecerá os principais nomes do Naturalismo português e compreenderá como o movimento se adaptou à realidade lusitana. Até lá!
Continuar estudo

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