Aula 4 – João Ubaldo Ribeiro, Ariano Suassuna e a Herança do Teatro e Narrativa Nordestina

Estude por matérias com conteúdos simples, diretos e sempre atualizados

Objetivo da Aula

Ao final desta aula, o aluno será capaz de:
  • Conhecer João Ubaldo Ribeiro e Ariano Suassuna como dois dos grandes nomes da literatura brasileira contemporânea, herdeiros e renovadores da tradição nordestina;
  • Identificar as características da obra de João Ubaldo Ribeiro: narrativa histórica, oralidade, humor e crítica social, com destaque para "Viva o Povo Brasileiro" (1984);
  • Identificar as características da obra de Ariano Suassuna: fusão do popular e do erudito, cultura medieval ibérica e cordel, e seu projeto estético armorial, com destaque para "O Auto da Compadecida" (1955);
  • Analisar trechos das obras, reconhecendo a linguagem inventiva, o diálogo com a cultura popular e a construção de uma identidade nordestina.

Por que isso é importante?

Por que isso é importante?
Na Aula 3, você mergulhou no submundo urbano de Rubem Fonseca. Agora, voltamos o olhar para o Nordeste — mas não o Nordeste da seca e da denúncia social do Romance de 30. João Ubaldo Ribeiro e Ariano Suassuna representam uma vertente da literatura contemporânea que celebra a cultura popular nordestina, reinventando-a com humor, erudição e uma linguagem que mescla o oral e o escrito, o popular e o clássico.
 
João Ubaldo Ribeiro (1941-2014) foi um dos grandes romancistas brasileiros da segunda metade do século XX. Sua obra-prima, "Viva o Povo Brasileiro" (1984), é um vasto painel da história da Bahia e do Brasil, narrado do ponto de vista dos anônimos, com uma linguagem que recria a oralidade do povo e um humor corrosivo. Ariano Suassuna (1927-2014), por sua vez, foi dramaturgo, romancista e poeta, criador do Movimento Armorial, que buscava valorizar a cultura popular nordestina — o cordel, a cantoria, a xilogravura — e fundi-la com a tradição erudita europeia. "O Auto da Compadecida" (1955) é sua obra mais conhecida, uma comédia que mistura o auto medieval ibérico com os tipos populares do sertão.
 
Estudar esses dois autores é importante para os vestibulares porque "Viva o Povo Brasileiro" e "O Auto da Compadecida" são obras frequentemente cobradas. Além disso, a capacidade de ambos de unir o popular e o erudito, o riso e a crítica social, os torna exemplos emblemáticos da riqueza da literatura contemporânea brasileira.

Contexto Curioso

João Ubaldo Ribeiro nasceu na Ilha de Itaparica, na Bahia, e cresceu ouvindo as histórias dos pescadores, as lendas e os causos que depois povoariam sua literatura. Formou-se em Direito, mas sua verdadeira vocação era escrever. Em 1984, publicou "Viva o Povo Brasileiro", um romance monumental que levou mais de dez anos para ser escrito. O livro narra quatro séculos de história do Brasil — da invasão holandesa ao século XX — pelo ponto de vista dos escravos, dos mestiços, dos índios, dos humildes. Não há heróis oficiais: a história é contada "de baixo", com um humor demolidor e uma linguagem que recria a fala do povo. O título, que é uma exclamação, já anuncia o tom: é um livro que celebra a resistência e a vitalidade do povo brasileiro, apesar de tudo.
 
Ariano Suassuna nasceu em João Pessoa, na Paraíba, e desde cedo foi marcado pela cultura do sertão — as cantorias de viola, o cordel, as festas populares, as peças de mamulengo (teatro de bonecos). Formou-se em Direito e em Filosofia, mas dedicou a vida à arte. Fundou o Movimento Armorial, que propunha a criação de uma arte erudita nordestina a partir das raízes populares. Sua obra mais famosa, "O Auto da Compadecida" (1955), é uma comédia que se passa no sertão e mistura o auto medieval (teatro religioso) com personagens da cultura popular: João Grilo, o amarelo esperto; Chicó, o contador de histórias medroso; o padre corrupto; o bispo avarento; o cangaceiro Severino; e, claro, Nossa Senhora, a Compadecida, que intercede pelos pecadores no julgamento celestial. A peça foi adaptada para o cinema e a televisão, tornando-se um dos maiores sucessos da cultura brasileira.

Teoria Explicada do Zero

João Ubaldo Ribeiro e "Viva o Povo Brasileiro"
João Ubaldo Ribeiro (1941-2014) é um dos grandes romancistas brasileiros da segunda metade do século XX. Sua obra-prima é "Viva o Povo Brasileiro" (1984), um romance histórico que reconstitui quatro séculos da formação do Brasil a partir da perspectiva dos excluídos.
 
Características da obra de João Ubaldo Ribeiro:
· Narrativa Histórica "de Baixo": A história não é contada pelos vencedores, mas pelos vencidos — escravos, índios, mestiços, mulheres anônimas. O protagonista não é um herói individual, mas o próprio povo brasileiro.
· Oralidade e Recriação Linguística: A linguagem do romance incorpora a fala popular, com seus regionalismos, gírias e expressões coloquiais. Ubaldo não reproduz a oralidade — ele a reinventa literariamente.
· Humor e Ironia Corrosiva: O romance é perpassado por um humor que mistura o cômico e o trágico. A ironia é a principal arma para desmontar as versões oficiais da história.
· Crítica Social e Política: Ubaldo denuncia a violência da colonização, a escravidão, a exploração e a hipocrisia das elites. Mas sua crítica não é panfletária — é literária, encarnada nas situações e na linguagem.
· Estrutura Fragmentada e Polifônica: O romance não segue uma linha cronológica rígida. Ele salta no tempo, mistura personagens históricos e ficcionais, e dá voz a múltiplos narradores.
 
Ariano Suassuna e o Movimento Armorial
Ariano Suassuna (1927-2014) foi dramaturgo, romancista e poeta. Sua obra mais conhecida é "O Auto da Compadecida" (1955), uma comédia que dialoga com a tradição do auto medieval ibérico e com a cultura popular nordestina. Em 1970, Suassuna fundou o Movimento Armorial, que buscava criar uma arte erudita nordestina a partir das raízes populares — o cordel, a xilogravura, a cantoria, o mamulengo.
 
Características da obra de Ariano Suassuna:
· Fusão do Popular e do Erudito: Suassuna mistura a tradição clássica europeia (Gil Vicente, Calderón, Cervantes) com a cultura popular nordestina. Em "O Auto da Compadecida", o julgamento celestial é inspirado nos autos medievais, mas os personagens são tipicamente sertanejos.
· Humor e Picardia: João Grilo e Chicó formam uma dupla que remete ao pícaro (anti-herói esperto da tradição ibérica) e aos palhaços do circo. O humor nasce do contraste entre a esperteza de João Grilo e a ingenuidade de Chicó, e das situações absurdas que enfrentam.
· Religiosidade Popular e Sincretismo: A fé do povo simples — que mistura catolicismo, devoção aos santos e crenças populares — é tratada com respeito e afeto. Nossa Senhora, a Compadecida, é a intercessora que compreende as fraquezas humanas.
· Linguagem Sertaneja e Oralidade: Os diálogos reproduzem a fala do sertanejo, com suas expressões, seu ritmo e seu humor. A linguagem é simples, direta e extremamente viva.
· Projeto Armorial (a partir de 1970): O Movimento Armorial buscou criar uma arte erudita nordestina que valorizasse as raízes populares. Suassuna coordenou o movimento, que envolveu música, artes plásticas, dança e literatura. O "Romance d'A Pedra do Reino" (1971) é a grande obra armorial de Suassuna — um romance monumental que funde o cordel, a novela de cavalaria e a épica sertaneja.
 
Quadro-Resumo: João Ubaldo Ribeiro e Ariano Suassuna
Aspecto João Ubaldo Ribeiro Ariano Suassuna
Obra-prima "Viva o Povo Brasileiro" (1984) "O Auto da Compadecida" (1955); "A Pedra do Reino" (1971)
Foco temático História do Brasil "de baixo", resistência popular. Cultura popular nordestina, religiosidade, humor.
Linguagem Oralidade recriada, coloquial, irônica. Falar sertanejo, simplicidade, oralidade.
Influências Oralidade popular, romance histórico. Auto medieval, cordel, cantoria, cavalaria.
Projeto Estético Revisão crítica da história brasileira. Movimento Armorial (fusão do popular e do erudito).

Exemplos Comentados

Exemplo 1 – João Ubaldo Ribeiro, "Viva o Povo Brasileiro" (Humor e Oralidade):
"A alma do brasileiro é uma alma mestiça. Não adianta querer ver pureza nisso. Pureza é coisa de europeu, que não tem o que fazer. Aqui a coisa é misturada, é no caldeirão. E o caldeirão ferve. Ferve e transborda. E a gente se queima, mas também se aquece."
 
-> Análise: O fragmento mostra a oralidade recriada por Ubaldo: frases curtas, ritmo de fala, metáforas populares ("caldeirão"). A reflexão sobre a mestiçagem é ao mesmo tempo crítica e bem-humorada.
 
Exemplo 2 – Ariano Suassuna, "O Auto da Compadecida" (Esperteza e Picardia):
"JOÃO GRILO — Chicó, você já imaginou se a gente pudesse enganar a morte?
CHICÓ — Eu não, João, tenho medo de morrer e ser condenado.
JOÃO GRILO — Medo de quê, homem? Lá no céu tem a Compadecida, e ela não deixa ninguém se perder. A gente faz uma oraçãozinha, conta uma história triste, e pronto! Tá salvo!"
 
-> Análise: O diálogo revela a esperteza de João Grilo e a ingenuidade de Chicó. A fé na Compadecida é tratada com humor e ternura. A linguagem é coloquial e teatral, ágil e espirituosa.
 
Exemplo 3 – João Ubaldo Ribeiro, "Viva o Povo Brasileiro" (Crítica Social e História "de Baixo"):
"Os negros fugiam e se embrenhavam no mato. Formavam quilombos, resistiam. Os índios também resistiam, cada um a seu modo. E os brancos, os senhores, morriam de medo. Porque o medo é a única coisa que os senhores sabem sentir. O resto é só arrogância e violência."
 
-> Análise: Ubaldo inverte a perspectiva: a história é contada do ponto de vista dos oprimidos. A resistência negra e indígena é posta em primeiro plano, e os senhores são retratados como medrosos e violentos. A ironia é a arma da crítica.

O Essencial (Guarde Isso)

O Essencial (Guarde Isso)
  • João Ubaldo Ribeiro (1941-2014): "Viva o Povo Brasileiro" (1984) — história do Brasil "de baixo", oralidade, humor, crítica social.
  • Ariano Suassuna (1927-2014): "O Auto da Compadecida" (1955) — comédia popular, fusão do auto medieval e do cordel, Movimento Armorial.
  • Ambos representam a força da cultura nordestina na literatura contemporânea, unindo o popular e o erudito, o riso e a crítica, a tradição e a invenção.

Dicas Práticas

Dica 1 (Associe o autor à perspectiva): João Ubaldo → história contada pelos vencidos, povo como protagonista. Ariano Suassuna → cultura popular nordestina, humor e religiosidade.
 
Dica 2 (Decore as obras e datas): "O Auto da Compadecida" (1955), "Viva o Povo Brasileiro" (1984), "A Pedra do Reino" (1971).
 
Dica 3 (Identifique a linguagem): Se o texto tem oralidade nordestina, humor e ritmo de fala, pode ser Ubaldo ou Suassuna. Para diferenciar: Ubaldo tende mais à ironia histórica; Suassuna, ao humor teatral e à picardia.
 
Dica 4 (Compare com o Romance de 30): Ambos falam do Nordeste, mas não fazem denúncia social explícita como Graciliano ou Rachel. Em vez disso, celebram a cultura popular e usam o humor como forma de resistência.

Dúvidas Frequentes

João Ubaldo Ribeiro é um autor realista?
Sua obra tem elementos realistas, mas também é profundamente inventiva na linguagem e na estrutura. Ele não se filia a um movimento específico — é um autor contemporâneo, com uma voz própria.
 
"O Auto da Compadecida" é uma peça religiosa?
É uma comédia que usa elementos do teatro religioso medieval (o auto), mas com um olhar irreverente e popular. A religiosidade é tratada com humor e afeto, sem dogmatismo.
 
O que é o Movimento Armorial?
É um movimento artístico fundado por Ariano Suassuna em 1970, que buscava criar uma arte erudita nordestina a partir das raízes populares — cordel, cantoria, xilogravura, mamulengo.

Exercícios

Nível FácilQuestão 1 – Associe as colunas.
Coluna A (Autor) Coluna B (Obra / Característica)
1. João Ubaldo Ribeiro ( ) "O Auto da Compadecida"
2. Ariano Suassuna ( ) "Viva o Povo Brasileiro"

Questão 2 – Qual obra de Ariano Suassuna é uma comédia que se passa no sertão e mistura o auto medieval com a cultura popular?
a) "Viva o Povo Brasileiro"
b) "O Auto da Compadecida"
c) "A Grande Arte"
d) "Morangos Mofados"

Nível MédioQuestão 3 – Leia o fragmento de João Ubaldo Ribeiro e responda.
"A alma do brasileiro é uma alma mestiça. Não adianta querer ver pureza nisso. Pureza é coisa de europeu, que não tem o que fazer."
a) Como o fragmento expressa a visão de João Ubaldo sobre a identidade brasileira?
b) Identifique a característica da linguagem de Ubaldo presente no trecho.
 
Questão 4 – Leia o diálogo de "O Auto da Compadecida" e responda.
"JOÃO GRILO — Medo de quê, homem? Lá no céu tem a Compadecida, e ela não deixa ninguém se perder."
a) Qual a característica da religiosidade popular expressa na fala de João Grilo?
b) Como o humor se mistura à fé nesse diálogo?
 
Questão 5 – Produção textual.
Escreva um parágrafo (4 a 5 linhas) comparando a forma como João Ubaldo Ribeiro e Ariano Suassuna utilizam o humor em suas obras.
 
Seu parágrafo:

Gabarito Comentado

Questão 1
Ordem correta: (2), (1).
 
Questão 2
Resposta correta: b) "O Auto da Compadecida" (1955), de Ariano Suassuna.
 
Questão 3
a) Ubaldo vê a identidade brasileira como fruto da mestiçagem, e não da pureza. A afirmação é um contraponto às visões elitistas que buscam uma origem "pura" para o Brasil.
b) A oralidade e o coloquialismo — a frase tem ritmo de fala, usa expressões populares ("não tem o que fazer") e um tom de conversa.
 
Questão 4
a) A religiosidade expressa por João Grilo é popular e sincrética — ele confia na intercessão de Nossa Senhora (a Compadecida), que compreende as fraquezas humanas e perdoa.
b) O humor está na esperteza de João Grilo, que trata a salvação como uma negociação — "a gente faz uma oraçãozinha, conta uma história triste, e pronto! Tá salvo!". A fé é sincera, mas a abordagem é malandra e bem-humorada.
 
Questão 5
Resposta livre. Exemplo esperado: "Tanto João Ubaldo Ribeiro quanto Ariano Suassuna usam o humor como forma de resistência, mas com tons diferentes. Ubaldo emprega uma ironia corrosiva para desmontar as versões oficiais da história e expor a hipocrisia das elites. Suassuna usa o humor teatral e a picardia popular para celebrar a esperteza do povo simples e sua religiosidade sincera. Em ambos, o riso é uma arma — em Ubaldo, mais cortante; em Suassuna, mais afetuoso."

Checklist da Aula 4

  • Conheço João Ubaldo Ribeiro e "Viva o Povo Brasileiro".
  • Conheço Ariano Suassuna e "O Auto da Compadecida".
  • Identifico as características de cada autor e as diferenças entre eles.
  • Compreendo o conceito de Movimento Armorial.
  • Resolvi os exercícios e compreendi meus erros.
  • Estou preparado(a) para a Aula 5 – Milton Hatoum e a Literatura da Amazônia.

Ligação com a Próxima Aula

Você conheceu dois gigantes da literatura nordestina contemporânea. Mas a literatura brasileira não se faz apenas de sertão e cidade grande. A Amazônia, com sua imensidão, seus rios e suas culturas, também tem grandes intérpretes. O principal deles é Milton Hatoum.
 
Na Aula 5 – Milton Hatoum e a Literatura da Amazônia, você mergulhará na obra do autor de "Dois Irmãos" e "Relato de um Certo Oriente", que retrata a complexa Manaus — cidade de imigrantes, de memórias e de silêncios. Até lá!
Continuar estudo

Outras Matérias para estudar e aprender