Aula 7 – Autores Contemporâneos em Prosa e Poesia: Itamar Vieira Junior e Geovani Martins

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Objetivo da Aula

Ao final desta aula, o aluno será capaz de:
  • Conhecer Itamar Vieira Junior e Geovani Martins como duas das vozes mais representativas da literatura brasileira do século XXI;
  • Identificar as características centrais da obra de cada autor: em Itamar Vieira Junior, o resgate da história e da cultura afro-brasileira, a questão fundiária e o realismo poético; em Geovani Martins, a crônica da vida nas favelas cariocas, a oralidade, a violência urbana e a experimentação com a linguagem das ruas;
  • Analisar trechos de "Torto Arado" (2019) e "O Sol na Cabeça" (2018), reconhecendo os recursos narrativos, a construção dos protagonistas e as denúncias sociais implícitas em cada obra.

Por que isso é importante?

Na Aula 6, você conheceu a escrevivência de Conceição Evaristo e a força da literatura afro-brasileira. Agora, vamos avançar para dois autores que estão moldando a literatura brasileira do século XXI. Itamar Vieira Junior e Geovani Martins são fenômenos editoriais recentes, mas sua importância vai muito além dos números de venda. Eles representam a continuidade e a renovação de um projeto literário que busca dar voz aos marginalizados, expor as feridas do Brasil e, ao mesmo tempo, criar uma linguagem artística de alto nível.
 
Itamar Vieira Junior, com seu romance "Torto Arado" (2019), conquistou os principais prêmios literários do país e se tornou leitura obrigatória em vestibulares. O livro retrata a vida de duas irmãs, Bibiana e Belonísia, descendentes de escravos, que trabalham em uma fazenda no sertão baiano em condições análogas à escravidão. A obra combina denúncia social, realismo poético e uma profunda valorização da cultura afro-brasileira.
 
Geovani Martins, com seu livro de contos "O Sol na Cabeça" (2018), trouxe para a literatura a voz das favelas cariocas. Seus protagonistas são jovens negros que vivem entre o funk, a violência policial, o tráfico e a amizade. A linguagem de Martins é coloquial, direta e experimental, incorporando gírias e a oralidade das ruas de uma forma inédita na literatura brasileira.
 
Estudar esses dois autores é importante para os vestibulares porque "Torto Arado" e "O Sol na Cabeça" já figuram entre as obras mais cobradas. Além disso, eles representam a pluralidade da literatura contemporânea e sua capacidade de dialogar com as questões mais urgentes do Brasil de hoje.

Contexto Curioso

Contexto Curioso
Itamar Vieira Junior nasceu em Salvador, em 1979, mas foi trabalhando como funcionário do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) que ele encontrou a matéria-prima para "Torto Arado". Durante anos, Itamar percorreu o sertão baiano, visitou comunidades quilombolas, ouviu histórias de luta pela terra e pela dignidade. O romance que ele escreveu é fruto dessa imersão. "Torto Arado" foi recusado por várias editoras antes de ser publicado pela Todavia, em 2019. Hoje, já vendeu mais de um milhão de exemplares e foi traduzido para mais de vinte idiomas. O título do livro remete a um arado torto, instrumento agrícola rudimentar usado pelas protagonistas, e simboliza a relação tortuosa do Brasil com sua própria terra e com os que nela trabalham.
 
Geovani Martins nasceu em 1991, no Rio de Janeiro, e cresceu na Rocinha. Antes de se tornar escritor, trabalhou como vendedor de cartões, atendente de telemarketing e garçom. "O Sol na Cabeça" foi seu primeiro livro, e o título é uma referência à sensação de estar sob o sol escaldante do Rio — e também à pressão constante de viver em uma comunidade sob vigilância e violência. Os contos foram escritos ao longo de anos, muitos deles durante as madrugadas, depois do trabalho. O livro foi um sucesso imediato de crítica e público, apontado como uma das grandes estreias literárias da década.

Teoria Explicada do Zero

Itamar Vieira Junior e "Torto Arado"
Itamar Vieira Junior (1979-) é romancista e geógrafo. Sua obra-prima é "Torto Arado" (2019), um romance que narra a história de duas irmãs, Bibiana e Belonísia, que vivem na fazenda Água Negra, no sertão baiano, em condições de trabalho análogas à escravidão. O romance cobre décadas e é dividido em três partes, cada uma com um foco narrativo diferente.
 
Características da obra de Itamar Vieira Junior:
· Denúncia Social e Questão Fundiária: O romance expõe as relações de trabalho semifeudais que ainda persistem no Brasil rural. Os trabalhadores da fazenda não recebem salários; trabalham em troca de moradia e uma pequena roça. A terra, que deveria ser de quem a cultiva, pertence aos descendentes dos senhores de engenho.
· Realismo Poético e Ancestralidade: A linguagem de Itamar Vieira Junior é lírica e precisa, sem ser rebuscada. A natureza e o trabalho são descritos com uma beleza que contrasta com a dureza da vida. A religiosidade de matriz africana, especialmente o jarê (culto afro-brasileiro típico da Bahia), perpassa o romance como força de resistência e identidade.
· Protagonismo Feminino Negro: As protagonistas são Bibiana e Belonísia, duas mulheres negras que enfrentam a opressão de classe, raça e gênero. Bibiana se engaja na luta sindical e política; Belonísia, vítima de um acidente que a deixa muda, encontra na terra seu vínculo profundo.
· Estrutura e Vozes Narrativas: O romance tem três partes, cada uma com um ponto de vista predominante (a primeira com narrador em terceira pessoa, a segunda com a voz de Bibiana, a terceira com a de uma entidade mística). Essa estrutura polifônica dá ao livro uma riqueza de perspectivas.
 
Geovani Martins e "O Sol na Cabeça"
 
Geovani Martins (1991-) é contista e romancista. Sua obra de estreia é "O Sol na Cabeça" (2018), uma coletânea de treze contos que retratam a vida dos jovens nas favelas cariocas. Em 2022, publicou seu primeiro romance, "Via Ápia".
 
Características da obra de Geovani Martins:
· Oralidade e Linguagem das Ruas: A grande inovação de Geovani Martins é a incorporação da fala das favelas à literatura, de forma natural e sem estereótipos. Gírias, expressões coloquiais, o ritmo da conversa — tudo isso entra na prosa com fluidez.
· Violência Urbana e Banalização da Morte: Os contos retratam a violência policial, o tráfico de drogas, os bailes funk e a rotina de jovens que crescem sob constante ameaça. A violência não é exótica — é cotidiana, banalizada.
· Juventude, Amizade e Resistência: Apesar do cenário de violência, os contos também são sobre amizade, amor, festa e sonhos. Os protagonistas de Martins não são apenas vítimas — eles têm agência, humor e afeto.
· Experimentação Formal e Estilística: Em "O Sol na Cabeça", Martins alterna entre o português padrão e a fala coloquial, às vezes no mesmo conto. Ele também brinca com a estrutura narrativa, criando finais em aberto e cenas que se desenrolam como sequências cinematográficas.
 
Outros Autores Contemporâneos em Destaque
Além de Itamar Vieira Junior e Geovani Martins, a literatura brasileira contemporânea conta com uma diversidade de vozes que merecem menção:
· Eliane Potiguara (1950-): Escritora indígena, autora de "Metade Cara, Metade Máscara" (2004). Sua obra é um marco da literatura indígena brasileira, misturando poesia, prosa e depoimento, e denunciando a violência contra os povos originários.
· Natalia Borges Polesso (1981-): Autora de "Amora" (2015), livro de contos que retrata relações lésbicas e questões de gênero, vencedor do Prêmio Jabuti.
· Cidinha da Silva (1967-): Escritora, ativista e contista, autora de "Um Exu em Nova York" (2018), com uma obra marcada pelo humor e pela abordagem das questões raciais.
 
Esses autores, entre muitos outros, mostram que a literatura brasileira do século XXI é marcada pela pluralidade de vozes, pela diversidade de temas e pelo compromisso com as questões do presente.
 
Quadro-Resumo: Itamar Vieira Junior e Geovani Martins
Aspecto Itamar Vieira Junior Geovani Martins
Obra principal "Torto Arado" (2019) "O Sol na Cabeça" (2018)
Foco temático Questão fundiária, racismo, ancestralidade afro-brasileira, trabalho rural. Juventude das favelas, violência urbana, tráfico, oralidade.
Linguagem Realismo poético, lírica e precisa, tom elevado mas acessível. Coloquial, gírias, oralidade, experimentação com a fala das ruas.
Protagonistas Bibiana e Belonísia (irmãs negras, trabalhadoras rurais). Jovens negros de favelas cariocas, em situações cotidianas e extremas.
Denúncia social Trabalho análogo à escravidão, luta pela terra, racismo estrutural. Violência policial, exclusão social, racismo, guerra às drogas.

Exemplos Comentados

Exemplo 1 – Itamar Vieira Junior, "Torto Arado" (Abertura — A Voz da Terra):
"Na boca da noite, quando o sol se punha atrás das serras, as irmãs Bibiana e Belonísia desciam para o rio. Lavavam os pés sujos de terra e conversavam sobre o futuro. Um futuro que elas sabiam que não estava ali, naquelas terras que trabalhavam desde sempre, mas que nunca seriam suas."
 
-> Análise: A linguagem é poética, mas sem excessos. A terra é ao mesmo tempo o cenário e o tema central — as irmãs trabalham nela, mas não a possuem. O futuro aparece como uma possibilidade distante.
 
Exemplo 2 – Itamar Vieira Junior, "Torto Arado" (Ancestralidade e Resistência):
"O jarê era uma herança dos antigos. Os encantados desciam sobre os corpos dos mais velhos, e as crianças aprendiam a respeitar o invisível. Para Bibiana e Belonísia, o jarê era a única coisa que lhes pertencia de verdade."
 
-> Análise: O jarê (culto afro-brasileiro) é apresentado como patrimônio imaterial, a única riqueza que os descendentes de escravos puderam preservar. A religião é uma forma de resistência e identidade.
 
Exemplo 3 – Geovani Martins, "O Sol na Cabeça" (Oralidade e Tensão):
"Acordei com o barulho do helicóptero. Olhei pela janela e vi o caveirão parado na esquina. Já era, pensei. Hoje vai ter baile, mas não vai ter festa."
 
-> Análise: A linguagem é direta, com gírias ("caveirão", "baile") e frases curtas. A tensão entre a festa (o baile funk) e a violência policial é o fio condutor do conto.
 
Exemplo 4 – Geovani Martins, "O Sol na Cabeça" (Amizade e Afeto em Meio à Violência):
"Os moleques estavam na laje, ouvindo funk, fumando um. Eu cheguei e o Rato já gritou: 'Chegou o sumido!'. A gente riu. Por uns instantes, ninguém lembrou do tiroteio da noite passada. Por uns instantes, era só a laje, o som e a amizade."
 
-> Análise: O afeto entre os amigos é um contraponto à violência. A laje é o espaço de refúgio, e a amizade é uma forma de resistência ao medo.

O Essencial (Guarde Isso)

O Essencial (Guarde Isso)
  • Itamar Vieira Junior (1979-): "Torto Arado" (2019). Romance sobre a questão fundiária, a herança da escravidão e a resistência afro-brasileira no sertão baiano. Protagonistas: Bibiana e Belonísia. Linguagem de realismo poético.
  • Geovani Martins (1991-): "O Sol na Cabeça" (2018). Coletânea de contos sobre a juventude das favelas cariocas. Oralidade, gírias, violência urbana e afeto.
  • Ambos representam a renovação da literatura brasileira no século XXI, com protagonismo negro, denúncia social e experimentação linguística.

Dicas Práticas

Dica 1 (Associe o autor ao tema): Itamar → campo, trabalho rural, ancestralidade. Geovani → favela, juventude, violência urbana. Essa distinção ajuda a identificar os autores nas questões.
 
Dica 2 (Decore as obras e datas): "Torto Arado" (2019) e "O Sol na Cabeça" (2018) são as mais cobradas. Lembre-se dos prêmios Jabuti e Oceanos para Itamar.
 
Dica 3 (Observe a linguagem): Se o texto é lírico e fala de terra e ancestralidade, é Itamar. Se é coloquial, com gírias e ritmo urbano, é Geovani.
 
Dica 4 (Compare com autores anteriores): Itamar dialoga com o Romance de 30 (Graciliano, Rachel), mas com um olhar afro-brasileiro e contemporâneo. Geovani dialoga com Rubem Fonseca, mas dá voz ao marginalizado em vez de apenas retratá-lo.

Dúvidas Frequentes

"Torto Arado" é um romance histórico?
É um romance contemporâneo que revisita a história do Brasil pela perspectiva dos trabalhadores rurais e quilombolas. Não se passa em um passado distante, mas expõe as marcas da escravidão que persistem até hoje.
 
Geovani Martins é um escritor marginal?
Sim, no sentido de que sua literatura nasce da margem — das favelas cariocas. Mas "marginal" não significa "menor". Sua obra é reconhecida pela crítica e tem grande qualidade literária.
 
Por que "Torto Arado" fez tanto sucesso?
Porque une uma história envolvente, personagens femininas fortes, uma denúncia social urgente e uma linguagem poética acessível. Além disso, dialoga com temas centrais do Brasil contemporâneo — racismo, desigualdade, luta pela terra.

Exercícios

Nível FácilQuestão 1 – Associe as colunas.
Coluna A (Autor) Coluna B (Obra)
1. Itamar Vieira Junior ( ) "Torto Arado"
2. Geovani Martins ( ) "O Sol na Cabeça"

Questão 2 – Qual das alternativas abaixo descreve corretamente uma característica da obra de Geovani Martins?
a) Realismo poético, com foco na vida rural e na ancestralidade.
b) Oralidade e uso de gírias, com foco na juventude das favelas.
c) Romance histórico sobre a formação do Brasil.
d) Romance psicológico com fluxo de consciência.

Nível MédioQuestão 3 – Leia o fragmento e identifique o autor e a obra.
"Na boca da noite, quando o sol se punha atrás das serras, as irmãs Bibiana e Belonísia desciam para o rio."
a) Itamar Vieira Junior — "Torto Arado"
b) Geovani Martins — "O Sol na Cabeça"
c) Milton Hatoum — "Dois Irmãos"
d) Conceição Evaristo — "Becos da Memória"
 
Questão 4 – Compare a linguagem de Geovani Martins em "O Sol na Cabeça" com a linguagem de Rubem Fonseca em "Feliz Ano Novo". Qual a principal diferença na forma de retratar a violência urbana?
 
Questão 5 – Produção textual.
Escreva um parágrafo (4 a 5 linhas) explicando por que Itamar Vieira Junior e Geovani Martins representam a renovação da literatura brasileira no século XXI.
 
Seu parágrafo:

Gabarito Comentado

Questão 1
Ordem correta: (1), (2).
 
Questão 2
Resposta correta: b) Oralidade e uso de gírias, com foco na juventude das favelas. As demais referem-se a outros autores: a (Itamar), c (João Ubaldo), d (Clarice Lispector).
 
Questão 3
Resposta correta: a) Itamar Vieira Junior — "Torto Arado". O fragmento menciona as protagonistas Bibiana e Belonísia e tem um tom lírico característico do autor.
 
Questão 4
Rubem Fonseca narra a violência com frieza e distanciamento, colocando o leitor dentro da mente do criminoso, sem julgamento moral explícito. Geovani Martins narra a violência do ponto de vista das vítimas e da comunidade, com uma linguagem coloquial que expressa medo, indignação e afeto. Fonseca choca pela crueza; Martins emociona pela proximidade e pela humanização dos personagens.
 
Questão 5
Resposta livre. Exemplo esperado: "Itamar Vieira Junior e Geovani Martins representam a renovação da literatura brasileira no século XXI por trazerem para o centro narrativo vozes historicamente marginalizadas. Itamar dá protagonismo a mulheres negras do campo, expondo a questão fundiária e a herança da escravidão com lirismo. Geovani traz a fala das favelas cariocas para a literatura, com oralidade e experimentação estilística. Ambos mostram que a literatura brasileira está viva, diversa e comprometida com as questões do presente."

Checklist da Aula 7

  • Conheço Itamar Vieira Junior e "Torto Arado".
  • Conheço Geovani Martins e "O Sol na Cabeça".
  • Identifico as características de cada autor e as diferenças entre eles.
  • Analisei trechos das obras e compreendi seus recursos narrativos.
  • Resolvi os exercícios e compreendi meus erros.
  • Estou preparado(a) para a Aula 8 – Revisão do Módulo (Mapa Mental + Resumo).

Ligação com a Próxima Aula

Você acaba de completar o estudo dos principais autores da literatura contemporânea brasileira. Com isso, encerramos o conteúdo do Módulo 10, que nos levou da poesia marginal à escrevivência, passando por Rubem Fonseca, Milton Hatoum e as novas vozes do século XXI.
 
Na Aula 8 – Revisão do Módulo (Mapa Mental e Resumo Integrado), você consolidará todo esse conhecimento em um único mapa visual, preparando-se para os exercícios de fixação e o encerramento do módulo. Até lá!
Continuar estudo

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