Aula 2 – Pressupostos e Subentendidos: Lendo as Entrelinhas

Estude por matérias com conteúdos simples, diretos e sempre atualizados

Objetivo da Aula

Ao final desta aula, o aluno será capaz de:
  • Conceituar pressuposto como uma informação implícita que se deduz logicamente de palavras ou expressões, sendo um sentido inegável;
  • Conceituar subentendido como uma insinuação, uma informação que fica por conta da interpretação do leitor e cuja responsabilidade é diluída, sendo um sentido dedutível;
  • Distinguir, na prática, essas duas formas de leitura "nas entrelinhas", essencial para a interpretação de textos.

Por que isso é importante?

Por que isso é importante?
Você já sabe que as palavras possuem sentidos literais (denotação) e figurados (conotação). Agora, vamos dar mais um passo: aprender a ler o que não está dito, mas que está lá, escondido nas dobras do texto. A Semântica do Discurso nos ensina que a comunicação não se faz apenas com o que é explícito. Ela se constrói, e muito, com o implícito.
 
Dominar os conceitos de pressuposto e subentendido é fundamental, pois torna o leitor crítico e ativo:
  • Identificar pressupostos: Você não aceita mais uma informação como verdade absoluta; você analisa o que o texto impõe como "verdade".
  • Identificar subentendidos: Você percebe as insinuações, as "indiretas". Entende que o autor quis dizer algo, mas não se responsabiliza totalmente por aquilo.
  • Leitura de vestibulares e concursos: Muitas questões de interpretação de texto se baseiam justamente nessa habilidade de distinguir o que está explícito, o que é pressuposto e o que é um subentendido.

Contexto Curioso

Na política e no humor, os subentendidos são armas poderosas. Na Roma Antiga, Cícero, o maior dos oradores, já dominava essa arte. Ele usava a chamada praeteritio, uma figura de linguagem em que o orador anuncia que não vai falar de um assunto... enquanto, é claro, fala dele. Um exemplo clássico, adaptado, seria: "Não vou nem mencionar as acusações de corrupção que pairam sobre meu adversário...". Pronto, o orador acabou de plantar a dúvida na cabeça dos ouvintes sem ter que provar nada. É o subentendido em sua forma mais pura.
 
Machado de Assis, mestre das sutilezas, era um gênio do subentendido. Em Dom Casmurro, o narrador Bentinho nunca acusa Capitu abertamente; ele apenas insinua, sugere, deixa que o leitor tire suas próprias conclusões (que, muitas vezes, são exatamente as que ele queria que fossem tiradas). É por isso que a obra gera debates até hoje: tudo está subentendido, nada é afirmado.
 
O pressuposto, por outro lado, é um "implícito gramatical". Quando um político diz: "Compreendo a insatisfação daqueles que ainda não receberam o auxílio", ele pressupõe que já há pessoas que receberam o auxílio, e o ouvinte percebe essa informação como um fato dado, não como uma afirmação discutível.

Teoria Explicada do Zero

O que são os Implícitos?
Os implícitos são informações que não estão ditas de forma direta e literal em um texto, mas que podem ser recuperadas pelo leitor por meio de raciocínios lógicos, contextuais ou interpretativos. Eles se dividem em dois tipos principais: os pressupostos e os subentendidos.

Os Pressupostos (A Informação "Gramatical")
Um pressuposto é uma informação implícita que está gramaticalmente inscrita na frase. Ela é acionada por uma palavra ou expressão linguística (um "gatilho") e, por estar presa à estrutura da língua, não pode ser negada sem contradizer a própria frase. O pressuposto é um dado apresentado como certo, indiscutível.
Exemplo Pressuposto (Informação Implícita) Análise
"Pedro voltou a estudar." Pedro já havia estudado antes. O verbo "voltou a" é o gatilho. Se alguém disser "Ele voltou a estudar, mas nunca havia estudado", há uma contradição lógica na frase.
"Infelizmente, o projeto foi cancelado." O projeto foi cancelado. O advérbio "infelizmente" não nega o fato; ele apenas expressa um lamento do falante. O cancelamento em si é um fato pressuposto.
"A casa ficou linda depois da reforma." A casa foi reformada. A locução "depois da" indica uma sequência temporal. Para algo ser "depois de", o evento anterior (a reforma) obrigatoriamente ocorreu.
"Candidatos de todo o Brasil participaram do concurso." Houve um concurso. O uso do artigo definido em "do" (de + o) indica que o concurso já é de conhecimento mútuo, tratando sua existência como um fato estabelecido.

Como identificar: Pergunte-se "O que essa frase dá como certo, como verdade indiscutível?". O pressuposto é justamente essa informação que a frase trata como fato consumado.

Os Subentendidos (A Insinuação Interpretativa)
Um subentendido é uma informação implícita que não está marcada linguisticamente. Ela é uma insinuação que depende totalmente do contexto, da situação comunicativa e da interpretação do leitor. A grande diferença é que um subentendido pode ser negado pelo falante ("Eu não quis dizer isso").
Contexto Frase Dita Subentendido (Possível Insinuação) Análise
Alguém lhe oferece um pedaço de bolo. "Estou de regime." "Não, obrigado." (recusa o bolo) A frase informa um fato literal. O subentendido (a recusa) depende do contexto da oferta. O falante pode negar a insinuação dizendo: "Não é uma recusa, só um comentário".
Dois colegas veem outro saindo às 16h. "O chefe vai gostar de ver isso." "Ele está agindo errado/será punido." É uma "indireta". O falante usa a ironia para insinuar um problema. Se confrontado, pode alegar que apenas constatou uma futura visualização do chefe.
Uma mãe fala com o filho no videogame. "Seu quarto está uma bagunça." "Pare de jogar e vá arrumar o quarto agora." A mãe constata um fato, mas, pela relação de autoridade, a frase funciona como uma ordem implícita. O filho entende o comando sem que ele seja verbalizado.

Como identificar: Pergunte-se "O que o autor está insinuando, mas poderia negar se fosse questionado?". O subentendido é essa "segunda intenção" que o leitor capta, mas que não está explicitamente confirmada.

Quadro de Comparação (Pressuposto vs. Subentendido)
Critério Pressuposto Subentendido
Origem Está marcado na gramática ou no vocabulário (gatilho linguístico). Vem puramente do contexto, da situação ou do conhecimento de mundo.
Negação Não pode ser negado sem gerar uma contradição lógica na frase. Pode ser negado: o autor pode recuar e dizer "não foi isso que eu quis dizer".
Responsabilidade A responsabilidade é total do falante/autor, pois a informação está na frase. A responsabilidade é compartilhada/diluída: o autor insinua, mas o leitor interpreta.
Pergunta-Chave "O que esta frase dá como verdade absoluta para poder existir?" "O que o autor está insinuando ou 'jogando no ar', mas não disse explicitamente?"

Exemplos Comentados

Exemplo 1 – Identificando o pressuposto:
· "O atual ministro da fazenda anunciou que a inflação vai cair."
-> Pressuposto: Existe um ministro da fazenda.
-> Análise: A palavra "atual" e a estrutura da frase dão como certa a existência do cargo e do seu ocupante.
 
Exemplo 2 – Identificando o subentendido:
· Dois alunos, após uma prova muito difícil, se encontram no corredor. Um pergunta: "Como você foi?". O outro responde: "Estudei muito."
-> Subentendido (mais provável): Fui bem na prova.
-> Análise: A resposta "Estudei muito" literalmente fala sobre o passado. No contexto de uma prova, insinua um bom resultado, mas não o afirma. Ele poderia ter estudado muito e ido mal.
 
Exemplo 3 – Pressuposto e Subentendido em um mesmo texto:
· Uma placa na porta de uma loja: "Devido à nova lei municipal, não vendemos mais bebidas alcoólicas."
-> Pressuposto 1: Existe uma nova lei municipal.
-> Pressuposto 2: A loja vendia bebidas alcoólicas antes ("não vendemos mais").
-> Subentendido: A loja está insatisfeita com a lei e quer informar ao cliente que a culpa não é dela.

O Essencial (Guarde Isso)

O Essencial (Guarde Isso)
  • Pressuposto: Informação implícita, gramaticalmente marcada, que não pode ser contestada. (Ex.: "Ele parou de fumar" pressupõe que ele fumava antes).
  • Subentendido: Insinuação, informação contextual, que pode ser negada pelo falante. (Ex.: Dizer "Está calor" num quarto fechado subentende um pedido para abrir a janela).
  • A chave para diferenciar está na possibilidade de negação: o pressuposto não pode ser negado; o subentendido, sim.

Dicas Práticas

Dica 1 (O teste da negação): Para saber se uma informação implícita é um pressuposto, tente negar a ideia principal e veja se o implícito se mantém. "A casa ficou linda depois da reforma." Negando: "A casa NÃO ficou linda depois da reforma." O pressuposto (de que houve uma reforma) continua verdadeiro nas duas frases.
 
Dica 2 (Identificando a "segunda intenção"): Para captar um subentendido, preste atenção ao que o autor quis provocar no leitor, sem ter que dizer diretamente. Uma manchete como "Prefeito minimiza críticas a seu governo" subentende que há críticas fortes ao governo, mas sem precisar afirmá-las como fato.
 
Dica 3 (Cuidado com as palavras gatilho): Certos verbos e advérbios são os maiores geradores de pressupostos. Fique atento a eles: "conseguiu", "continuar", "parar", "voltar", "deixar", "infelizmente", "ainda", "até", "mesmo".

Dúvidas Frequentes

Qual a principal diferença entre pressuposto e subentendido?
O pressuposto é uma informação "cravada" na frase por uma palavra; não pode ser negado. O subentendido é uma "indireta", uma insinuação que depende do contexto e pode ser anulada ("não foi isso que eu quis dizer").
 
A ironia é um subentendido?
Sim. A ironia é um caso de subentendido, em que se diz o contrário do que se pensa, insinuando uma crítica. É o exemplo máximo de como a responsabilidade pelo sentido recai sobre a interpretação do leitor.
 
Uma mesma frase pode ter um pressuposto e um subentendido?
Sim, perfeitamente. Como no exemplo da placa da loja, a placa tem pressupostos (existe uma nova lei, a loja vendia bebidas antes) e um subentendido (a loja está insatisfeita com a proibição).

Exercícios

Nível FácilQuestão 1 – Marque o pressuposto da frase: "O professor lamentou ter que adiar a prova."
a) A prova foi adiada.
b) O professor é muito severo.
c) Os alunos não estudaram para a prova.
d) O professor se demitiu.
 
Questão 2 – Marque o subentendido mais provável da fala em um cinema lotado: "Você poderia tirar seu chapéu?"
a) O chapéu é muito bonito.
b) Quero saber a marca do chapéu.
c) Não estou conseguindo ver o filme.
d) Estou elogiando o chapéu.
 
Questão 3 – Classifique a informação em destaque como Pressuposto (P) ou Subentendido (S).
a) "O ator parou de fumar depois de quarenta anos." [O ator fumava antes.] (   )
b) Um colega diz para o outro, que está se servindo de comida: "Nossa, que fome!". [O colega está exagerando na quantidade de comida.] (   )
c) "Os novos computadores melhoraram a produtividade da empresa." [A empresa adquiriu novos computadores.] (   )

Nível MédioQuestão 4 – (Adaptada de ENEM) Leia a frase: "O desmatamento contínuo da Amazônia preocupa a comunidade internacional."
a) Identifique um pressuposto presente na frase.
b) Explique qual palavra ou expressão desencadeia esse pressuposto.
 
Questão 5 – Explique a diferença de sentido implícito entre as duas manchetes, focando no pressuposto e no subentendido.
I. "Ministro nega ter recebido propina do empresário."
II. "Ministro volta a negar ter recebido propina do empresário."

Gabarito Comentado

Questão 1
a) A prova foi adiada. (O verbo "adiar" e a expressão "ter que" são fatos. O lamento é sobre o fato, que já está dado como certo.)
 
Questão 2
c) Não estou conseguindo ver o filme. (A pergunta literal sobre o chapéu, nesse contexto, insinua um pedido para que ele seja retirado, pois está atrapalhando a visão. É um subentendido polido.)
 
Questão 3
a) (P) Pressuposto. (A expressão "parou de" é o gatilho linguístico que torna inegável o fato de que ele fumava antes.)
b) (S) Subentendido. (A insinuação de que a pessoa está a comer demais depende do contexto e pode ser negada: "Não estou comendo muito, é só o prato que é pequeno!").
c) (P) Pressuposto. (A palavra "novos" e a estrutura da frase dão como certa a aquisição dos computadores.)
 
Questão 4
a) Um pressuposto é que a Amazônia está sendo desmatada.
b) A palavra "contínuo" e o próprio ato de "preocupar" com algo que acontece ativam o pressuposto. "O desmatamento" (com artigo definido) também trata o fato como conhecido.
 
Questão 5
I. A frase "Ministro nega..." apresenta um pressuposto: houve uma acusação de que ele recebeu propina. A negação é um fato.
II. A frase "Ministro volta a negar..." apresenta o mesmo pressuposto (houve uma acusação) mais um pressuposto adicional (ele já havia negado antes). O subentendido da manchete II, ao usar "volta a", insinua que a acusação é grave e persistente, e que a negação é repetida, o que pode lançar mais suspeita sobre o ministro.

Checklist da Aula 2

  • Sei o que é um pressuposto e que ele é marcado linguisticamente.
  • Sei o que é um subentendido e que ele depende do contexto.
  • Consigo distinguir pressuposto de subentendido em frases e textos.
  • Entendi que o pressuposto não pode ser negado, e o subentendido, sim.
  • Resolvi os exercícios e compreendi meus erros.
  • Estou preparado(a) para a Aula 3 – Catacrese e Sinestesia.

Ligação com a Próxima Aula

Você agora sabe ir além da superfície do texto, identificando o que está implícito. Na Aula 3 – Catacrese e Sinestesia, vamos retornar ao campo das figuras de linguagem. Você aprenderá que a catacrese é como uma metáfora "esquecida", tão usada que perdeu seu valor poético e se tornou o nome comum de algo (como o "braço" da cadeira). Já a sinestesia é a figura que mistura sensações, permitindo que você "veja" uma música, "sinta" uma cor ou "ouça" um perfume. Até lá!
Continuar estudo

Outras Matérias para estudar e aprender