Objetivo da Aula
- Compreender que a colocação pronominal varia entre o português brasileiro e o português europeu, sem que uma variante seja "errada" em seu contexto;
- Identificar as principais diferenças: a preferência pela próclise no Brasil e a preferência pela ênclise em Portugal;
- Reconhecer o impacto dessas diferenças na escrita formal e na fala coloquial em cada país;
- Utilizar esse conhecimento para adequar a colocação pronominal ao registro e ao público-alvo do texto.
Por que isso é importante?
Mas a língua portuguesa não é falada e escrita da mesma forma em todos os lugares.
Entre Brasil e Portugal, existem diferenças significativas na maneira como os pronomes são posicionados e isso pode causar estranhamento ou até mesmo confusão em leitores e ouvintes.
Observe estas duas frases, ambas corretas, mas típicas de países diferentes:
· "Me dá um café?" (Brasil, coloquial)
· "Dá-me um café?" (Portugal, formal e coloquial)
Compreender essas diferenças é importante por três motivos:
1. Leitura de textos internacionais:
Se você ler um autor português, encontrará ênclises em lugares que, para o brasileiro, soam estranhas.
Saber disso evita que você considere o texto "errado".
2. Escrita para públicos variados:
Um texto formal brasileiro seguirá as regras que estudamos; um texto para um leitor português poderá soar excessivamente informal se usar muita próclise.
3. Consciência linguística:
Entender que a língua varia geograficamente é parte do domínio completo do idioma.
Esta aula é, portanto, um convite a olhar para além das regras e perceber a vitalidade e a diversidade da língua portuguesa.
Contexto Curioso
Cada país desenvolveu seu próprio "ritmo" de colocação pronominal.
Essa diferença tem raízes históricas.
No século XVIII, o português brasileiro começou a se afastar do europeu, influenciado pelo contato com línguas africanas e indígenas, e pela própria dinâmica social da colônia.
A próclise, que no início era apenas uma tendência oral, foi aos poucos se tornando a forma natural de falar — e, em muitos contextos, de escrever — no Brasil.
Já em Portugal, a tradição da ênclise se manteve forte. Até hoje, os portugueses usam a ênclise não apenas na escrita formal, mas também na fala cotidiana.
Um português diz "Chamo-me João" com a mesma naturalidade com que um brasileiro diz "Me chamo João".
Um exemplo literário curioso:
o escritor português Eça de Queirós, no século XIX, escrevia frases como "Tinha-se levantado" e "Sentou-se à mesa", com muito mais ênclise do que Machado de Assis, seu contemporâneo brasileiro, que já variava entre "Tinha se levantado" e "Tinha-se levantado".
Teoria Explicada do Zero
| Situação | Norma Culta (Brasil) | Uso Real (Brasil) |
| Início de frase | Ênclise: "Diga-me a verdade." | Coloquial: "Me diga a verdade." |
| Sujeito explícito | Facultativo: "Ela me chamou" ou "Ela chamou-me". | Preferência: "Ela me chamou". |
| Infinitivo com preposição | Facultativo: "Para te ver" ou "Para ver-te". | Preferência: "Para te ver". |
| Locução verbal | Três opções: "Quero te falar", "Te quero falar", "Quero falar-te". | Preferência: "Quero te falar" (próclise ao principal). |
Consequência prática: No Brasil, mesmo em textos formais, a próclise é amplamente aceita em casos facultativos. A banca do ENEM, por exemplo, não desconta pontos por próclise em início de frase na redação.
A ênclise portuguesa: a tradição que permanece
Em Portugal, a ênclise é a posição predominante — e muitas vezes obrigatória em contextos onde, para o brasileiro, a próclise seria natural.
| Situação | Brasil (Tendência) | Portugal (Tendência) |
| Início de frase | Coloquial: "Me diga." / Formal: "Diga-me." | Sempre: "Diga-me." (Mesmo em conversas informais). |
| Sujeito explícito | Preferência: "Ela me chamou." | Preferência: "Ela chamou-me." |
| Infinitivo com preposição | Preferência: "Para te ver." | Preferência: "Para ver-te." |
| Advérbio (sem vírgula) | Sempre Próclise: "Aqui se trabalha." | Híbrido: Próclise é comum, mas a ênclise é aceitável. |
Observação importante: Em Portugal, a próclise com palavras atrativas (negativas, relativas, interrogativas) é tão obrigatória quanto no Brasil. Um português também diz "Não me diga" e "Quem te chamou?".
Diferenças em locuções verbais
As locuções verbais representam uma das diferenças mais visíveis entre as duas variantes.
| Estrutura | Brasil (Tendência) | Portugal (Tendência) |
| Auxiliar + Infinitivo | "Vou te contar" (Próclise ao principal) | "Vou contar-te" ou "Vou-te contar" |
| Auxiliar + Gerúndio | "Estou me sentindo" (Próclise ao principal) | "Estou a sentir-me" (Construção padrão lá) |
| Auxiliar + Particípio | "Tinha me falado" (Próclise ao auxiliar) | "Tinha-me falado" (Ênclise ao auxiliar) |
Atenção: Em Portugal, a construção "estar a" + infinitivo substitui o gerúndio em muitos contextos. Onde o brasileiro diz "Estou sentindo-me", o português diz "Estou a sentir-me". A regra de colocação, contudo, é a mesma: a ênclise é preferida.
O que isso significa para a escrita formal?
Na escrita formal brasileira, você deve seguir as regras que estudamos ao longo do módulo:
· Ênclise em início de frase ("Diga-me").
· Próclise obrigatória com palavras atrativas ("Não me diga").
· Facultatividade nos casos de sujeito explícito e infinitivo com preposição.
Na leitura de textos portugueses, você deve estar preparado para encontrar muito mais ênclise — inclusive em posições onde, no Brasil, ela soaria formal ou artificial. Isso não é erro; é a variante local da língua.
Quadro-resumo da Aula 13
| Contexto | Tendência no Brasil | Tendência em Portugal |
| Início de frase (formal) | "Diga-me." | "Diga-me." |
| Início de frase (coloquial) | "Me diga." | "Diga-me." |
| Sujeito explícito | "Ela me chamou." | "Ela chamou-me." |
| Infinitivo com preposição | "Para te ver." | "Para ver-te." |
| Locução com gerúndio | "Estou me sentindo." | "Estou a sentir-me." |
| Palavras atrativas | Próclise obrigatória | Próclise obrigatória |
Exemplos Comentados
· Brasil (coloquial): "Me empresta o livro?"
· Brasil (formal): "Empresta-me o livro?"
· Portugal (formal e coloquial): "Empresta-me o livro?"
A ênclise é a regra em Portugal, sempre. No Brasil, depende do registro.
Exemplo 2 – Sujeito explícito:
· Brasil: "O João me contou tudo." (natural, formal ou coloquial)
· Portugal: "O João contou-me tudo." (natural, formal ou coloquial)
Ambas são corretas; a diferença é geográfica.
Exemplo 3 – Infinitivo com preposição:
· Brasil: "Estou aqui para te ajudar."
· Portugal: "Estou aqui para ajudar-te."
Nenhuma das duas é errada. A primeira é mais natural no Brasil; a segunda, em Portugal.
Exemplo 4 – Locução com gerúndio (Brasil) vs. estar a + infinitivo (Portugal):
· Brasil: "Estou me sentindo melhor."
· Portugal: "Estou a sentir-me melhor."
A construção é diferente, mas a colocação do pronome segue a mesma lógica: ênclise ao verbo principal.
Exemplo 5 – Palavra atrativa (comportamento igual nos dois países):
· Brasil: "Não me diga isso."
· Portugal: "Não me diga isso."
Com palavras atrativas, a próclise é obrigatória em ambas as variantes.
O Essencial (Guarde Isso)
- A próclise é a posição mais comum e natural no Brasil, tanto na fala quanto na escrita.
- A ênclise é a posição predominante em Portugal, inclusive na fala coloquial.
- Com palavras atrativas (não, que, nunca etc.), a próclise é obrigatória nos dois países.
- As duas variantes são igualmente legítimas. A escolha depende do público e do registro (formal ou coloquial).
Dicas Práticas
Dica 2 (Leitura de autores portugueses): Não estranhe a ênclise frequente. Ela não é "formal demais"; é apenas o padrão local.
Dica 3 (Provas e concursos no Brasil): Siga a norma culta brasileira como estudamos. As bancas brasileiras não cobram o padrão português.
Dica 4 (Consciência linguística): Língua não é certa ou errada de forma absoluta; é adequada ao contexto. Um brasileiro que usa próclise em Portugal será entendido, e vice-versa.
Dúvidas Frequentes
No português brasileiro coloquial, não. Na norma culta brasileira, deve-se evitar em textos formais. Em Portugal, é sempre inadequado.
Um texto brasileiro com muita ênclise soa artificial?
Sim. O excesso de ênclise em um texto brasileiro pode soar pedante ou artificial. O ideal é usar a ênclise nos casos obrigatórios e variar nos facultativos.
Qual é a forma mais correta: a brasileira ou a portuguesa?
Nenhuma é "mais correta". São variantes da mesma língua, cada uma com suas regras e preferências.
O ENEM aceita próclise em início de frase?
Sim. O ENEM valoriza a adequação ao registro e reconhece a variação linguística.
Exercícios
a) "Diga-me a verdade." ( )
b) "Me diga a verdade." ( )
c) "Ela me contou tudo." ( )
d) "Ela contou-me tudo." ( )
e) "Não me deixes." ( )
Questão 2 – Marque a opção correta sobre as diferenças entre Brasil e Portugal.
a) ( ) Em Portugal, a ênclise é usada apenas na escrita formal.
( ) Em Portugal, a ênclise é comum até na fala coloquial.
b) ( ) No Brasil, a próclise é proibida em início de frase na norma culta formal.
( ) No Brasil, a próclise em início de frase é a única forma aceita em documentos oficiais.
c) ( ) Com palavras atrativas (não, nunca, que), a próclise é obrigatória apenas no Brasil.
( ) Com palavras atrativas, a próclise é obrigatória nos dois países.
Questão 3 – Identifique se a frase segue o padrão mais comum no Brasil (B) ou em Portugal (P).
a) "Estou a sentir-me cansado." ( )
b) "Estou me sentindo cansado." ( )
c) "Tinha-me esquecido do compromisso." ( )
d) "Tinha me esquecido do compromisso." ( )
Questão 4 – Reescreva a frase "Me empresta o caderno" de acordo com:
a) O padrão formal brasileiro: ________________________________________________
b) O padrão português (formal e coloquial): ________________________________________________
Questão 5 – Complete as lacunas com a colocação mais típica de cada país.
a) Brasil (formal): __________ a verdade. (Dizer + me)
b) Portugal: __________ a verdade. (Dizer + me)
c) Brasil (coloquial): Ela __________ chamou. (me)
d) Portugal: Ela __________. (chamar + me)
Nível MédioQuestão 6 – Em qual das frases abaixo a colocação pronominal soaria ESTRANHA para um falante brasileiro, mas NATURAL para um português?
a) "Não me digas isso."
b) "Quem te contou essa história?"
c) "O João deu-me o livro ontem."
d) "Nunca me esquecerei."
Questão 7 – (Adaptada de vestibular português) Assinale a opção que segue o padrão culto de Portugal.
a) Me parece que vai chover.
b) Parece-me que vai chover.
c) Não parece-me que vai chover.
d) Quem me chamou?
e) Sempre me disseram a verdade.
Questão 8 – A frase "Os alunos que se esforçaram foram aprovados" está correta tanto no Brasil quanto em Portugal? Justifique.
Resposta: ________________________________________________________________
Justificativa: ________________________________________________________________
Nível AvançadoQuestão 9 – Análise de trecho literário (adaptado de Eça de Queirós, escritor português)
Leia o trecho:
"Tinha-se levantado cedo. Sentou-se à mesa e pôs-se a ler o jornal. Não lhe apetecia conversar. Deram-lhe uma carta, que ele abriu com indiferença."
a) Identifique e classifique as colocações pronominais presentes no trecho (próclise, ênclise, mesóclise).
b) O que esse trecho revela sobre a preferência de colocação pronominal em Portugal?
c) Como um escritor brasileiro contemporâneo provavelmente reescreveria a primeira frase, mantendo o tom formal?
Questão 10 – Desafio de produção
Escreva um parágrafo (4 a 6 linhas) sobre um encontro entre um brasileiro e um português, no qual ambos estão se conhecendo. Utilize obrigatoriamente:
· Uma frase com colocação típica brasileira (próclise em caso facultativo).
· Uma frase com colocação típica portuguesa (ênclise em caso facultativo).
· Uma frase em que ambos usariam a mesma colocação (próclise obrigatória com palavra atrativa).
Destaque as colocações utilizadas e identifique qual variante cada uma representa.
Seu parágrafo:
Gabarito Comentado
a) A (Ênclise inicial é a norma culta padrão em ambos).
b) B (Próclise inicial é marca da oralidade brasileira).
c) B (Brasil prefere próclise com sujeito explícito).
d) P (Portugal prefere ênclise com sujeito explícito).
e) A (O "não" atrai o pronome em qualquer variante).
Questão 2:
a) Segunda opção (A ênclise é natural na fala portuguesa).
b) Primeira opção (A norma culta brasileira formal ainda exige ênclise inicial).
c) Segunda opção (Regras de atração são universais na língua).
Questão 3:
a) P (Estrutura "estar a + infinitivo" é europeia).
b) B (Gerúndio com pronome solto é brasileiro).
c) P (Ênclise ao auxiliar "ter" é o padrão de Portugal).
d) B (Próclise ao auxiliar é a tendência no Brasil).
Questão 4:
a) Empresta-me o caderno.
b) Empresta-me o caderno.
Questão 5:
a) Diga-me
b) Diga-me
c) me
d) chamou-me
Questão 6:
c) Justificativa: No Brasil, o natural é "O João me deu". A ênclise com sujeito claro soa muito formal para nós, mas é o padrão em Portugal.
Questão 7:
b) Parece-me... (Em Portugal, não se inicia frase com pronome átono em registro algum).
Questão 8:
Resposta: Sim, está correta em ambos.
Justificativa: A palavra "que" funciona como um pronome relativo. Pronomes relativos são palavras atrativas obrigatórias tanto no Brasil quanto em Portugal, exigindo a próclise.
Questão 9:
a) Tinha-se levantado (ênclise ao auxiliar); Sentou-se (ênclise inicial); pôs-se (ênclise inicial); Não lhe apetecia (próclise com advérbio negativo); Deram-lhe (ênclise inicial).
b) Revela que Portugal utiliza a ênclise como "posição padrão", só usando a próclise quando há um atrativo (como o "não").
c) Um brasileiro escreveria: "Tinha se levantado" (próclise ao auxiliar é mais natural no Brasil).
Questão 10
Resposta livre. Exemplo esperado:
"O brasileiro me cumprimentou com um sorriso largo (próclise típica brasileira). O português apresentou-se com educação: 'Chamo-me João' (ênclise típica portuguesa). Nenhum dos dois se ofendeu com a curiosidade do outro (próclise com palavra atrativa nenhum, comum aos dois)."
Checklist da Aula 13
- Compreendi que o Brasil prefere a próclise e Portugal prefere a ênclise.
- Sei que as palavras atrativas exigem próclise nos dois países.
- Reconheço as diferenças de colocação entre as duas variantes.
- Sei adequar a colocação ao registro e ao público do texto.
- Resolvi os exercícios e compreendi meus acertos e erros.
- Estou pronto para a Aula 14 – Mapa Mental de Revisão.
Ligação com a Próxima Aula
Na Aula 14 – Mapa Mental de Revisão, faremos a grande síntese de todo o conteúdo do módulo. Com um mapa mental completo e um resumo integrado, você organizará todas as informações antes de começar a maratona de exercícios.
Até lá!

































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